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  • Exercício físico é ótimo para o cérebro, mas exercício ao ar livre pode ser ainda melhor 

    O artigo intitulado “ Exercising is good for the brain but exercising outside is potentially better” ( link abaixo) investiga como o exercício agudo e o ambiente externo afetam o controle da atenção. O objetivo do estudo é compreender a interação entre o exercício e o ambiente na cognição. 

    A introdução do artigo destaca a importância do exercício físico e da exposição à natureza na função cognitiva. Além disso, os pesquisadores questionam como o exercício e o ambiente interagem para influenciar a cognição. Eles sugerem que o ambiente pode desempenhar um papel muito importante no aumento da função cognitiva. 

    O estudo foi realizado em dois locais, um em ambiente interno e outro em ambiente externo. Os participantes caminharam por 15 minutos em cada local. O Eletroencefalograma (EEG) foi utilizado para medir a função cognitiva antes e depois das caminhadas. Cada participante da pesquisa completou as caminhadas internas e externas. 

    Os autores descobriram que uma caminhada de 15 minutos ao ar livre melhorou o desempenho e aumentou a amplitude do EEG, em especial, eventos neurais comumente associada à atenção e à memória de trabalho. No entanto, esse resultado não foi observado após uma caminhada de 15 minutos no interior. Os resultados sugerem que o tipo de ambiente pode desempenhar um papel significativo no aumento da função cognitiva.   

    Os autores destacam a importância de entender como o exercício e o ambiente interagem para influenciar a cognição, especialmente no contexto de urbanização e estilos de vida sedentários. Os pesquisadores sugerem que as descobertas do estudo podem ter implicações importantes na concepção de intervenções para melhorar a função cognitiva. 

    As descobertas do estudo são consistentes com pesquisas anteriores que mostraram os benefícios da exposição à natureza na função cognitiva. O uso do EEG para medir a função cognitiva é importante, pois fornece uma medida mais objetiva da função cognitiva do que utilizar apenas medidas de autorrelato. No entanto, o estudo tem algumas limitações, como o pequeno tamanho da amostra e o uso de uma única medida da função cognitiva que limitam a generalização dos resultados.  

    Referência: 

    Boere, K., Lloyd, K., Binsted, G., & Krigolson, O. E. (2023). Exercising is good for the brain but exercising outside is potentially better. Scientific Reports, 13(1), 1140.  

    https://www.nature.com/articles/s41598-022-26093-2?s=03

  • Estudo investiga relação entre características demográficas, funções executivas e memória em pacientes com Parkinson tratados com Deep Brain Stimulation

    Foto por MART PRODUCTION em Pexels.com

    Estudo investiga a associação entre características demográficas, funções executivas e memória em pacientes com doença de Parkinson, com e sem Deep Brain Stimulation (DBS). A DBS é uma técnica cirúrgica que utiliza a implantação de eletrodos em áreas específicas do cérebro para ajudar no tratamento de doenças neurológicas, como a doença de Parkinson, tremores essenciais, distonia e transtorno obsessivo-compulsivo. Os eletrodos são conectados a um gerador de impulsos, semelhante a um marca-passo cardíaco, que é implantado sob a pele no peito do paciente. O gerador envia impulsos elétricos aos eletrodos, que estimulam as áreas do cérebro responsáveis pelos sintomas da doença, ajudando a controlá-los. A DBS é uma opção de tratamento para pacientes que não respondem mais aos medicamentos ou que apresentam efeitos colaterais graves. No entanto, é uma técnica invasiva que envolve riscos e é realizada apenas em casos selecionados e por equipes especializadas. 

    O estudo, publicado na Aging and Health Research contou com a participação de 76 pacientes, divididos em três grupos: 30 pessoas saudáveis (grupo controle), 30 diagnosticadas com DP tratadas apenas com medicamentos (grupo medicamentoso) e 16 com DP tratada com DBS (grupo DBS). Para avaliar as funções executivas e a memória, foram utilizados vários instrumentos, como a Avaliação Cognitiva de Montreal (MoCA), Rey Auditory Verbal Learning Test, Trail Making Test A and B, Digits Span e Stroop Test. 

    Os resultados revelaram que o desempenho da memória e das funções executivas estava associado a características demográficas apenas em pacientes tratados com DBS. A análise de regressão exploratória identificou uma associação significativa entre idade, escolaridade e atividade de vida diária e o desempenho das funções executivas e da memória somente no grupo DBS. Embora o estudo tenha encontrado diferenças significativas entre os grupos de controle, medicamentos e DBS, é importante considerar o desequilíbrio de gênero nos grupos avaliados como uma limitação. 

    A DP é comumente tratada com intervenções farmacológicas, como a reposição de levodopa. No entanto, quando o tratamento medicamentoso não é mais suficiente, alternativas, como a DBS, podem ser utilizadas. Embora a DBS tenha demonstrado muitos benefícios motores, como redução das flutuações motoras e das discinesias, os declínios cognitivos são um possível efeito colateral. 

    Estudos anteriores já relataram a influência da DBS nas funções executivas e na memória em pacientes com DP. Alguns pesquisadores defendem que o declínio na fluência verbal se deve às micro lesões resultantes da cirurgia de implantação e que a diminuição é temporária. No entanto, mais investigações são necessárias para entender a influência de variáveis individuais no desempenho cognitivo em pacientes com DBS. 

    Em resumo, este estudo teve como objetivo identificar a associação entre características demográficas, funções executivas e desempenho da memória em pacientes com DP com e sem DBS. Os resultados sugerem que a idade, escolaridade e atividades da vida diária estão relacionadas ao desempenho cognitivo apenas em pacientes com DBS. 

    Referência: 

    Arten, Thayná LS, and Amer C. Hamdan. “Executive functions and memory in Parkinson’s disease patients with Deep Brain Stimulation.” Aging and Health Research 2.1 (2022): 100065. 

    Link para o artigo: 

    https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2667032122000129

  • Estudo evidencia que crenças positivas sobre a idade podem influenciar a recuperação cognitiva em idosos com comprometimento leve

    Este estudo investiga o papel das crenças positivas sobre a idade na recuperação do comprometimento cognitivo leve (CCL) entre idosos. O estudo descobriu que indivíduos com CCL que têm crenças positivas sobre a idade têm maior probabilidade de experimentar recuperação cognitiva e o fazem mais cedo do que aqueles com crenças negativas sobre a idade. O estudo destaca a importância de promover crenças positivas sobre a idade em idosos para potencialmente melhorar os resultados cognitivos.

    O estudo usou dados do Health and Retirement Study, uma pesquisa longitudinal nacional, e incluiu 4.765 participantes com 60 anos ou mais que foram diagnosticados com CCL. Os participantes foram acompanhados por até oito anos para avaliar seu estado cognitivo. A pesquisa utilizou um modelo estatístico para analisar os dados e controlar possíveis fatores de confusão, como idade, sexo, educação e estado de saúde.

    Os resultados do estudo sugerem que as crenças positivas sobre a idade podem ter um efeito protetor na saúde cognitiva de indivíduos mais velhos. A pesquisa contribui para o crescente corpo de pesquisas sobre o papel dos fatores psicossociais no envelhecimento cognitivo e destaca a necessidade de intervenções que promovam crenças positivas sobre a idade em idosos.

    O estudo tem algumas limitações, incluindo o uso de medidas autorreferidas de crenças etárias e a falta de informações sobre o conteúdo específico das crenças etárias defendidas pelos participantes. Pesquisas futuras poderiam abordar essas limitações usando medidas mais objetivas das crenças sobre a idade e examinando o conteúdo específico das crenças sobre a idade que estão associadas aos resultados cognitivos.

    No geral, o estudo fornece informações importantes sobre o papel das crenças positivas sobre a idade no envelhecimento cognitivo e destaca os benefícios potenciais da promoção de crenças positivas sobre a idade em idosos.

    Link para o artigo:

    https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2803740

  • Cinco hábitos que as pessoas podem adotar para diminuir o risco da doença de Alzheimer

    A doença de Alzheimer é uma das doenças neurodegenerativas mais comuns em todo o mundo. Afeta principalmente pessoas mais velhas e pode causar perda progressiva de memória e uma variedade de outros sintomas cognitivos e comportamentais. Embora ainda não haja cura para a doença de Alzheimer, existem algumas coisas que as pessoas podem fazer para reduzir o risco de desenvolver a doença. Neste post, discutiremos cinco hábitos que podem ajudar a reduzir o risco de Alzheimer.

    Atividade física regular

    O exercício regular é uma das melhores coisas que as pessoas podem fazer para manter o cérebro saudável.O exercício ajuda a aumentar o fluxo sanguíneo para o cérebro, o que pode ajudar a melhorar a função cognitiva. Além disso, o exercício regular pode ajudar a reduzir o risco de doenças cardiovasculares, como pressão alta e diabetes, que são fatores de risco conhecidos para a doença de Alzheimer.

    Alimentação saudável

    A dieta é um fator importante na saúde do cérebro. As pessoas devem tentar comer uma dieta saudável e equilibrada, rica em frutas, vegetais, grãos integrais, peixe e carnes magras. Também é importante limitar o consumo de alimentos processados ​​e açúcar.Alguns estudos sugerem que uma dieta mediterrânea pode ser particularmente benéfica para a saúde do cérebro.

    Estimulação cognitiva

    A estimulação cognitiva é importante para manter o cérebro saudável e reduzir o risco de Alzheimer. As pessoas devem tentar manter suas mentes ativas aprendendo coisas novas e desafiadoras, por ex. Por exemplo, aprender um novo idioma, tocar um instrumento musical ou jogar jogos que treinem a memória e a cognição.

    Dormir bem

    O sono adequado é essencial para uma boa saúde do cérebro. A falta de sono pode levar a problemas de memória e cognição e aumentar o risco de doenças cardiovasculares e outras condições que são fatores de risco para a doença de Alzheimer.As pessoas devem tentar dormir pelo menos sete a oito horas por noite e manter uma rotina de sono consistente.

    Socialização

    A socialização é uma parte importante da saúde geral do cérebro. Pessoas socialmente comprometidas têm um risco menor de desenvolver a doença de Alzheimer. As pessoas devem tentar manter suas conexões sociais, seja por meio de atividades com amigos e familiares ou por meio de atividades em grupo, como voluntariado ou participação em grupos comunitários.

    Em resumo, há várias coisas que as pessoas podem fazer para reduzir o risco de Alzheimer.Exercício regular, dieta saudável, estimulação cognitiva, sono adequado e socialização são hábitos importantes para manter a saúde do cérebro e reduzir o risco de doença de Alzheimer. Ao adotar esses hábitos, as pessoas podem ajudar a manter suas mentes saudáveis ​​e prevenir ou retardar o desenvolvimento da doença de Alzheimer.

  • Teorias de inteligência e psicometria: algumas considerações

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    PEDRO HADELICH BRASILIENSE

     

    1. Introdução

     As teorias da inteligência sofreram diversas modificações ao longo do tempo, e ainda hoje não há consenso sobre elas. O debate e as pesquisas, porém, levaram ao levantamento de algumas questões cruciais para a ciência psicométrica e para as próprias teorias de inteligência. Entre elas, duas principais se mostram ao longo da história do tema. A primeira, sobre a natureza inteligência, como elemento geral e organizador da atividade consciente, conforme a perspectiva de Spearman, ou como uma série de aptidões mais ou menos paralelas e independentes (como a musical, a verbal, a matemática, etc.), que podem ser mais proeminentes de determinadas formas e em determinadas configurações em cada sujeito, de acordo com a perspectiva de Thurstone (Oliveira Castro e Oliveira Castro, 2001; Primi, 2003; Schelini, Almeida & Primi, 2013). A segunda, sobre quais os principais fatores que a influenciam: a constituição genética (inata), ou a cognitiva, aprendida e contextualizada culturalmente.

     

    2. Breve panorama histórico do construto e das questões sobre inteligência

    Em 1942, Catell propõe uma concepção menos polarizada, combinando a perspectiva múltipla de Thurstone e a geral de Spearman: a Teoria Gf-Gc (inteligência fluida e inteligência cristalizada), posteriormente aprimorada por seu aluno Horn. Grosso modo, a inteligência fluida, (Gf) mais abstrata, refere-se à capacidade de lidar com situações e problemas novos, de elaborar e compreender conceitos e formular inferências e relações complexas. A inteligência cristalizada (Gc), por sua vez, relaciona-se com experiências, habilidades e conhecimentos consolidados, relacionados ao contexto ambiental, cultural (e, portanto, histórico, no sentido do momento histórico), e histórico (no sentido ontogenético, das experiências do sujeito ao longo do tempo de sua vida), portanto relacionado a habilidades mais práticas. Assim, a Gf pode ser entendida como mais determinada por aspectos biológicos, e a Gc pelo contexto cultural, pelo ambiente e pelo histórico de vida do sujeito (Aiken, 2000; Cattell, 1998 como citado por Schelini, Almeida & Primi, 2013). Posteriormente, Carroll propõe uma teoria integrativa entre essas importantes perspectivas, sugerindo uma organização hierárquica entre as habilidades intelectuais, a Teoria dos Três Estratos. McGrew e Flanagan (1998), propõem um modelo combinado dos estudos desses três autores, que se convencionou chamar de Teoria CHC (Cattell-Horn-Carroll) das Capacidades Cognitivas, considerado pelo pesquisador Primi (2003) como “o ‘estado da arte’ na área.

    De acordo com Primi (2003), atualmente não há mais uma concepção unidimensional da inteligência, e sim uma perspectiva multidimensional. Nesse modelo, há uma camada mais geral, que associa todas as capacidades cognitivas; um segundo nível, no qual estão dez fatores ligados a áreas amplas do funcionamento cognitivo e um nível último, de cerca setenta subdivisões mais especializadas desses dez fatores amplos. De acordo com este autor, tal modelo é sustentado na análise fatorial:

     A análise fatorial por sua vez baseia-se nas diferenças individuais reveladas por uma centena de testes criados para avaliar as capacidades cognitivas. O propósito da análise fatorial é identificar subgrupos de testes que avaliam uma mesma capacidade cognitiva. A lógica deste procedimento é que, se dois testes requerem uma mesma capacidade cognitiva, então pessoas que tiverem esta capacidade desenvolvida tenderão apresentar escores mais altos nos dois testes simultaneamente. Ao contrário, pessoas com menor desenvolvimento tenderão apresentar escores baixos nos dois testes simultaneamente (Primi, 2003).

    Essa inovação teórica significa a possibilidade de reavaliar as críticas que os testes de inteligência vêm sofrendo pela mídia, a partir de uma nova concepção de inteligência como multidimensional. Assim, os testes existentes só puderam avaliar certos aspectos da inteligência. A partir desta curta revisão bibliográfica, até o momento ainda não há teste psicológico capaz de medir todos os elementos que compõem o modelo CHC. A utilidade deste modelo teórico residiria justamente no fato dele possibilitar, de um lado, entender melhor a natureza das funções cognitivas que as antigas baterias avaliavam e, de outro, gerar novos testes, mais completos, que possam avaliar todos os aspectos da inteligência (Primi, 2003). Em relação aos testes, sabe-se que as Matrizes Progressivas de Raven avaliam mais a Gf, enquanto alguns subtestes do WISC-III são capazes de medir a inteligência cristalizada (Gc), o processamento visual (Gv) e a velocidade de processamento (Gs).

    Há ainda a discussão atual a respeito do chamado “efeito Flynn” e suas possíveis causas (Schelini, Almeida & Primi, 2013). Consiste o efeito – descoberto pelo psicólogo James Flynn – na verificação de ganhos nas medidas de inteligência das populações ao longo do tempo. O que se constata é um aumento de 3 pontos por década (ou 7,5 pontos por geração) entre crianças no período escolar, e de 5 pontos entre adultos. De acordo com Flynn (Schelini, Almeida & Primi, 2013), há multiplicadores, sociais e individuais, que explicam esse aumento. Dos primeiros podem ser citados a industrialização, a tecnologia por ela gerada, a cultura da informação, que promove ambientes cada vez mais ricos em estímulos, o aumento dos anos de escolaridade e a mudança nos padrões de nutrição. Já em relação aos multiplicadores individuais, Flynn supõe que “os que têm níveis intelectuais maiores procurarão ou ficarão associados a ambientes em que a inteligência seja positivamente valorizada e estimulada” (Schelini, Almeida & Primi, 2013).

    Observe-se que nenhuma das perspectivas até agora levou em conta o caráter relativo do conceito de inteligência. Mesmo no senso comum, a inteligência é um conceito vago que não descreve um atributo ou um comportamento específico, mas um modo de uma ação ou quando os comportamentos ocorrerem. Assim, uma série de aptidões diferentes podem ser consideradas inteligentes, dando margem a tantas divergências entre as teorias que propõem uma definição do construto.

    Partindo da análise dos termos utilizados na psicologia, do sentido que eles têm na linguagem cotidiana, Castro e Castro (2001) chegaram a conclusões interessantes. Uma delas é justamente o fato de “inteligente” não ser um mero adjetivo, mas sim a descrição de um ato de sucesso. Essa característica adverbial da noção de inteligência permite que o termo possa ser utilizado para descrever uma série de ações, dependendo do contexto em que estão inseridas, mas sem necessariamente fazer menção a algo específico. Assim, José pode ser considerado mais inteligente que Pedro por ter mais sucesso na escola, mas talvez, por ter dificuldades em resolver problemas práticos cotidianos, não seja considerado inteligente por seus familiares. Além disso, cada contexto cultural valorizará determinados aspectos da inteligência. Afinal, “as noções ocidentais sobre o fenômeno nem sempre são compartilhadas por outras culturas. Enquanto a cultura norte-americana enfatiza principalmente aspectos cognitivos da inteligência, algumas subculturas africanas, por exemplo, dão maior ênfase a habilidades sociais” (Castro & Castro, 2001).

    A segunda conclusão interessante deste autores afirma que, se na Psicologia os conceitos de raciocínio e inteligência estão mesclados, no senso comum eles não são a mesma coisa. É certo que o termo “raciocinado” (no sentido de uma qualidade racional e analítica do pensamento), também é adverbial, isto é, descreve um modo, mas não uma ação específica, assim como inteligente. No entanto, os termos não são sinônimos. Aliás, é possível que uma ação seja “raciocinada”, mas não “inteligente”, quando segue procedimentos e não obtém sucesso, partindo de uma concepção de inteligência como a habilidade cognitiva de resolução de problemas. Da mesma forma, é possível que uma ação inteligente não seja “raciocinada”, mas “criativa”, como a habilidade de um indivíduo para improviso com um instrumento musical. Essa diferenciação é importante porque abre um espaço para a criatividade na inteligência.

     

    3. Discussão e conclusão

     Prevalecem concepções pragimáticas sobre os fenômenos relacionados à inteligência, inclusive sobre a chamada inteligência emocional. Uma das concepções gerais mais difundidas sobre inteligência entre os pesquisadores e nos trabalhos publicados sobre o tema é a de que a inteligência se define como a capacidade para resolução de problemas ou a capacidade de adaptação ao meio (Primi, 2003). Mas uma ação pode resolver um problema de forma precária, relativizando a noção de resolução (sucesso). Em uma objeção mais contundente, essa concepção, ao ampliar o escopo da conceituação da inteligência para além das faculdades cognitivas racionais, incluindo em si as dimensões emocional, afetiva e social do ser humano, reduz questões morais e existenciais a uma lógica utilitarista binária (sucesso-fracasso), o que levanta o questionamento do quão apropriada pode ser uma concepção meramente pragmática, reduzida à avaliação racionalista (no sentido da adequação sistemática dos meios aos fins) do grau de inteligência de um sujeito pelo sucesso ou fracasso de suas ações. Ainda, os “fins” não são sequer discutidos em sua conceituação, num empobrecimento da noção de emoção como mero “conjunto organizado de reações programadas evolutivamente no cérebro para enfrentar situações-problema que ameaçam a sobrevivência do organismo” (Primi, 2003; grifos meus), e, consequente, de sentimento, privando-a de significações e sentidos importantes para questões existenciais mais profundas do que meramente a “sobrevivência”.

    Ainda assim, a objeção de que os testes psicológicos necessariamente e por eles próprios reforçam desigualdades sociais é infundada, na medida em que são os testadores responsáveis pela finalidade que lhes dão, dependendo do uso que se faz deles. As normas dos testes evidenciam discrepâncias reais entre os grupos sociais, discrepâncias que evidenciam cisões na humanidade a serem superadas. Alves (1998), em um artigo que trata da adaptação de normas de testes no Brasil, relata que mulheres têm resultados de inteligência semelhantes ou melhores aos homens na primeira infância em testes como o Goodenough, o Goodenough-Harris, Teste das Matrizes Coloridas de Raven e na Escala de Maturidade Colúmbia, mas resultados piores na idade adulta em testes como o Teste R-I e no teste D.70 (Alves, 1998). Esse fenômeno pode ser compreendido tanto de forma reificante como de forma crítica, dependendo da interpretação que se faça dos dados. Em uma perspectiva reificante, são focados apenas os resultados que reforçam o senso-comum sobre a inferioridade cognitiva das mulheres, e estes são interpretados de forma a reforçar essas ideias; em uma leitura crítica, que corroboraria o argumento que (ainda, infelizmente) as feministas se veem constrangidas a reforçar, de que mulheres são pessoas, e não um tipo de subclasse do gênero humano, tais resultados evidenciam uma ordem social na qual as oportunidades de desenvolvimento são desiguais, uma vez que, se houvesse diferenças constitutivas (biológicas) nesse quesito, da inteligência associada à noção de ‘competência’ cognitiva, elas se mostrariam desde muito cedo, antes que fossem demarcadas de forma mais radical tais diferenças.

    Essas discrepâncias podem ser uma das causas da psicologia como um todo ainda ser uma ciência fragmentada e multifacetada, sem uma teoria geral integrativa. As conflitantes definições metafísicas sobre o ser humano, que repercute nas incompatíveis definições epistemológicas do objeto da psicologia, refletem a miríade de perspectivas originárias da grande variedade de lugares sociais e seus interesses, das quais partem as (pessoas) pesquisadoras e pesquisadas. A avaliação psicológica pode ser uma ferramenta auxiliar útil para a compreensão desses variados lugares sociais, tanto quanto para a tarefa de distinguir o universal no ser humano.

     

    Referências

    Alves, I. C. B. (1998). Variáveis significativas na avaliação da inteligência. Psicologia escolar e educacional, 2(2), 109-114.

    Castro, J. M. O.; Castro, K. M. O. (2001). A Função Adverbial de “Inteligência”: Definições e Usos em Psicologia. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 17 (3), 257-264.

    Primi, R. (2003). Inteligência: Avanços nos Modelos Teóricos e nos Instrumentos de Medida. Avaliação Psicológica, 1 (1), 67-77.

    Schelini, P. W.; Almeida, L. S.; Primi, R. (2013). Aumento da inteligência ao longo do tempo: efeito Flynn e suas possíveis causas. Psico-USF, 18 (1), p. 45-52.

     

  • Como funciona o banco de encéfalos onde serão estudado o cérebro do jogador Bellini

    brain

    viaComo funciona o banco de encéfalos onde serão estudado o cérebro do jogador Bellini – VEJA Ciência – Ví­deo – VEJA.com.

  • Professor defende questão com a ‘grande pensadora’ Valesca Popozuda

    Professor chamou a funkeira de “grande pensadora contemporânea” em teste aplicado aos alunos do ensino médio. Em sua página, Valesca disse que “se fosse outro gênero musical não teria gerado tal problema”

    viaProfessor defende questão com a ‘grande pensadora’ Valesca Popozuda – Educção – Notícia – VEJA.com.

  • Atualização da página “Avaliação Psicológica II”

    Inclusão de artigo sobe o efeito Flynn.

    Avaliação Psicológica II

  • Alerta: Falha metodológica compromete pesquisa ou “Eu não mereço ser enganado”.

    fake

    Cuidado com as estatísticas oficiais. Alguns erros podem ser intencionais.  Reportagem de Marcelo Leite, da Folha de S. Paulo:

    http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1435862-estudo-do-ipea-que-aponta-apoio-a-ataques-a-mulheres-e-contestado.shtml

     

    Outra reportagem (Veja.com):

    http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/pesquisadores-duvidaram-de-ipea-assim-que-dados-sobre-estupro-foram-revelados

     

  • Tese original sobre o Efeito Stroop foi doada a Universidade Vanderbilt

     

    O Teste de Stroop é um dos instrumentos de avaliação neuropsicológica mais utilizados no mundo todo para avaliar as funções executivas, em especial, o controle inibitório. Foi originalmente desenvolvido por John Ridley Stroop, em 1935. A tese original, que que relata a descoberta o efeito Stroop, foi doada a Univeridade Vanderbilt (EUA). Ver link abaixo:

    Thesis documenting discovery of famous psychological effect donated to Vanderbilt.

     

    Para ler a tese original, click aqui.

  • Brasil vai mal em prova que avalia capacidade de solucionar problemas práticos

    Menos de 2% dos estudantes brasileiros foram capazes de solucionar questões complexas ligadas a situações cotidianas, segundo OCDE

    viaBrasil vai mal em prova que avalia capacidade de solucionar problemas práticos – Educação – Notícia –

    VEJA.com.

  • Atividade física aeróbica pode melhorar a cognição e a capacidade funcional de pacientes com Alzheimer?

    brain trainingUm estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicado na Revista Arquivos de Neuro-psiquiatria investigou se o exercício aeróbio pode melhorar a cognição e a capacidade funcional de pacientes com a Doença de Alzheimer (DA). Um grupo de 20 idosos com demência (16 com diagnóstico de Alzheimer e 4 com Demência mista) foram aleatoriamente distribuídos em dois grupos: o grupo de exercício (GE) e o grupo controle (GC). Os grupos foram distribuídos sem conhecimento prévio dos pesquisadores.

    O GE foi submetido a atividade aeróbica utilizando-se um treinamento na esteira com duração de 30 minutos, 2 vezes na semana e durante 3 meses. A avaliação neuropsicológica foi realizada utilizando-se uma versão adaptada da escala Cambridge Cognitive Examination (CAMCOG). Outros instrumentos foram empregados para avaliar função executiva, atenção e concentração, flexibilidade cognitiva, controle inibitório e capacidade funcional. Os principais instrumentos foram: Teste do Desenho do Relógio, Teste de Fluência verbal (categoria animal), Teste de Stroop, Teste de Dígitos (Bateria WAIS-R) e Teste de Aprendizagem Auditivo Verbal de Rey. A capacidade funcional foi mensurada utilizando as seguintes escalas: Berg Balance Scale (BERG), Functional Reach (FR), Timed Up and Go test (TUGT), Modified Timed up and Go (TUGT MOD) e Sit-to-Stand test (STS).

    Os resultados evidenciaram diferenças significativas entre os grupos no CAMCOG (p< 0,001), mas não em outras medidas neuropsicológicas. Em relação as medidas funcionais, os resultados evidenciaram diferenças significativas no BERG (p<0,001), FR (p<0,001) e TUGT (p<0,001). Todas as medidas neuropsicológicas e funcionais utilizadas apresentaram tamanho do efeito (effect size) que variaram de médio (0,38) a grande (1,58) para o grupo GE.

    Os autores concluem que a atividade física aeróbica (treinamento em esteira) melhora o desempenho cognitivo e funcional de pacientes com DA. Estes resultados podem ser explicados pelo aumento da redistribuição do fluxo sanguíneo cerebral, pela ação protetora de fatores neurotrópicos do cérebro e pelo aumento da síntese e metabolismo de neurotransmissores.

    A pesquisa apresentou resultados interessantes que necessitam de investigações futuras que corroborem os resultados encontrados. Algumas limitações do estudo são observados pelos próprios autores. O mais evidente é o número da amostra pequena, em especial a selecionada para a atividade física (n=10). Outra, refere-se a características dos participantes, composta de pacientes com DA leve. Além destas, algumas medidas neuropsicológicas e funcionais não apresentaram diferenças significativas entre os grupos, e principalmente, o tamanho do efeito, que apresentou uma variação muito grande (observado pelo intervalo de confiança-IC). Esse resultado sugere que os resultados também podem ser interpretados como tratamento sem efeito. Estas limitações são desafios para novas investigações.

     

    Referência:

    Arcoverde, Cynthia, Deslandes, Andrea, Moraes, Helena, Almeida, Cloyra, Araujo, Narahyana Bom de, Vasques, Paulo Eduardo, Silveira, Heitor, & Laks, Jerson. (2014). Treadmill training as an augmentation treatment for Alzheimers disease: a pilot randomized controlled study. Arquivos de Neuro-Psiquiatria72(3), 190-196. Retrieved March 31, 2014, from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-282X2014000300190&lng=en&tlng=. 10.1590/0004-282X20130231.

  • Resumo da semana

    Cuidados na avaliação neuropsicológica em idosos

    Algumas análises sobre a aprovação do Marco Civil da Internet na Câmara Federal

    A memória operacional pode ser treinada?

    Fraudes na Uerj evidenciam falhas do sistema de cotas – VEJA.com

  • Cuidados na avaliação neuropsicológica em idosos

    Trecho do capítulo do livro Neuropsicologia Clínica Aplicada sobre a Avaliação neuropsicológica da depressão em idosos * elders

     

     

    O aumento da estimativa de vida do brasileiro traz consigo a preocupação com a população idosa, pois nesse período da vida os declínios dos processos físicos e psicológicos que ocorreram ao longo da vida, se tornam mais evidentes. As perdas neuronais sejam elas perdas de eficiência ou a morte das células podem causar graves incapacidades e sofrimentos (STUART-HAMILTON, 2002). Os déficits cognitivos característicos dessa fase da vida também podem funcionar como indícios de outras patologias. Dentre elas, um dos principais problemas de saúde mental entre os idosos é a depressão, que acarreta declínio funcional, aumento da morbidade e da mortalidade (ÁVILA; BOTTINO, 2006). Nos idosos um dos principais fatores associado ao suicídio é reconhecidamente a depressão (OMS, 2006).

    Junto com o aumento da população de idosos tem crescido o interesse dos profissionais da área de saúde em como diagnosticar e tratar a depressão. Esse interesse é devido às dificuldades em saber as causas e as influências genéticas e psicossociais além de como tratá-la (ÁVILA; BOTTINO, 2006). Hoje a compreensão da influência da relação de fatores biológicos, psicológicos e sociais tanto nas doenças físicas como nas mentais vem crescendo rapidamente. Isso traz a possibilidade de maior eficiência nos tratamentos (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2001).

    No caso de pacientes idosos com depressão, o profissional que realiza sua avaliação precisa estar atento às alterações cognitivas. Algumas alterações podem ser consideradas de caráter normal em pacientes idosos, mas outras podem ser consideradas patológicas (GUIMARÃES DOS SANTOS, 2000). Por exemplo: quando idosos apresentam dificuldades em avaliações de memória deve-se levar em consideração as condições do próprio envelhecimento ou que possam estar associadas com depressão ou com uma doença orgânica mais grave (DALGLEISH; COX, 2002).

    O declínio natural das funções cognitivas (memória, aprendizagem e funções executivas), é característico do processo do envelhecimento fisiológico do sistema nervoso central (HAMDAN; CORRÊA, 2009). Porém em alguns idosos diagnosticados com depressão são observados déficits cognitivos que trazem questionamentos sobre o que causa o que é o que vem primeiro. Poderia a depressão levar ao desenvolvimento de déficits cognitivos ou seriam os déficits cognitivos os indícios de uma depressão (ÁVILA; BOTTINO, 2006).

    A cognição é a capacidade de processar informações a utilizá-las na adaptação do ser humano ao seu meio e o meio a ele mesmo. Neste processo usa-se um conjunto de funções mentais como o pensamento, atenção, linguagem, memória, percepção, raciocínio lógico e a capacidade de julgamento crítico. Funções mentais estas que permitem que o conhecimento seja adquirido, registrado, relembrado e elaborado (ROCCA, MONTEIRO; FUENTES, 2009).

    Ainda há dúvidas se a remissão dos sintomas da depressão levaria a remissão dos déficits cognitivos (ÁVILA; BOTTINO, 2006). A presença de depressão na população idosa aumenta ainda mais suas incapacidades devido à idade mais avançada. Inclusive porque muitas vezes ela deixa de ser detectada como uma patologia e seus sintomas passam a ser percebidos como um processo natural do envelhecimento (OMS, 2001). Hamdan e Corrêa (2009) alertam que as alterações encontradas na depressão devem ser bem investigadas porque muitas delas também são encontradas nos estágios iniciais da demência.

    Algumas pesquisas associam a depressão diagnosticada num tempo mais tardio de vida como um risco aumentado para demência, outras atribuem à depressão uma característica prodrômica, sugerindo que ela é um sintoma precoce da demência (BROMMELHOFF, GATZ, JOHANSSON, MCARDLE, FRATIGLIONI; PEDERSEN, 2009). A idade mais avançada aumenta o risco de desenvolver certas perturbações, inclusive a Doença de Alzheimer. Somado a isso o fenômeno do crescimento da população idosa, as consequências são diretas para a saúde pública com uma grande carga social e econômica (OMS, 2001).

    Shawn, Husain, Greer e Cullum (2010) apontam para as questões neurofisiológicas e neurobiológicas e suas correlações com o transtorno de depressão maior. Há a hipótese de que a depressão em idade avançada estaria relacionada com lesões vasculares nas conexões frontal e límbico que podem desregular o circuito da norepinefrina e serotonina. Nos quadros de depressão vascular é mais comum a associação à anedonia (incapacidade de sentir prazer) e aos déficits cognitivos (ÁVILA; BOTTINO, 2006). A estrutura do hipocampo que está relacionada com a depressão é particularmente vulnerável na população idosa, pois há redução nessa estrutura levando a alterações de comportamento (BICALHO, 2007).

    Um dos estudos sobre a prevalência de sintomas depressivos em idosos no sul do Brasil demonstrou escores altos nos testes para essa população e quanto maior a idade, mais altos os escores para depressão (GAZALLE, LIMA, TAVARES; HALLAL, 2004). Somando-se também o crescimento percentual de idosos faz aumentar o interesse dos profissionais de saúde em diagnosticar e tratar (ÁVILA; BOTTINO, 2006) as alterações cognitivas, comportamentais, motivacionais, afetivas e fisiológicas (BECK, 1997) da depressão nessa faixa etária. O esforço é crescente dos profissionais de saúde em atender e cuidar dos idosos para que mantenham uma melhor qualidade de vida mesmo em idade avançada.

     

    Referência:

    Hamdan, A. C.  org (2014). Neuropsicologia Clínica Aplicada. Editora CRV.

    neuroImagem

     

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