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Exercício físico é ótimo para o cérebro, mas exercício ao ar livre pode ser ainda melhor

O artigo intitulado “ Exercising is good for the brain but exercising outside is potentially better” ( link abaixo) investiga como o exercício agudo e o ambiente externo afetam o controle da atenção. O objetivo do estudo é compreender a interação entre o exercício e o ambiente na cognição.
A introdução do artigo destaca a importância do exercício físico e da exposição à natureza na função cognitiva. Além disso, os pesquisadores questionam como o exercício e o ambiente interagem para influenciar a cognição. Eles sugerem que o ambiente pode desempenhar um papel muito importante no aumento da função cognitiva.
O estudo foi realizado em dois locais, um em ambiente interno e outro em ambiente externo. Os participantes caminharam por 15 minutos em cada local. O Eletroencefalograma (EEG) foi utilizado para medir a função cognitiva antes e depois das caminhadas. Cada participante da pesquisa completou as caminhadas internas e externas.
Os autores descobriram que uma caminhada de 15 minutos ao ar livre melhorou o desempenho e aumentou a amplitude do EEG, em especial, eventos neurais comumente associada à atenção e à memória de trabalho. No entanto, esse resultado não foi observado após uma caminhada de 15 minutos no interior. Os resultados sugerem que o tipo de ambiente pode desempenhar um papel significativo no aumento da função cognitiva.
Os autores destacam a importância de entender como o exercício e o ambiente interagem para influenciar a cognição, especialmente no contexto de urbanização e estilos de vida sedentários. Os pesquisadores sugerem que as descobertas do estudo podem ter implicações importantes na concepção de intervenções para melhorar a função cognitiva.
As descobertas do estudo são consistentes com pesquisas anteriores que mostraram os benefícios da exposição à natureza na função cognitiva. O uso do EEG para medir a função cognitiva é importante, pois fornece uma medida mais objetiva da função cognitiva do que utilizar apenas medidas de autorrelato. No entanto, o estudo tem algumas limitações, como o pequeno tamanho da amostra e o uso de uma única medida da função cognitiva que limitam a generalização dos resultados.
Referência:
Boere, K., Lloyd, K., Binsted, G., & Krigolson, O. E. (2023). Exercising is good for the brain but exercising outside is potentially better. Scientific Reports, 13(1), 1140.
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Estudo investiga relação entre características demográficas, funções executivas e memória em pacientes com Parkinson tratados com Deep Brain Stimulation

Foto por MART PRODUCTION em Pexels.com Estudo investiga a associação entre características demográficas, funções executivas e memória em pacientes com doença de Parkinson, com e sem Deep Brain Stimulation (DBS). A DBS é uma técnica cirúrgica que utiliza a implantação de eletrodos em áreas específicas do cérebro para ajudar no tratamento de doenças neurológicas, como a doença de Parkinson, tremores essenciais, distonia e transtorno obsessivo-compulsivo. Os eletrodos são conectados a um gerador de impulsos, semelhante a um marca-passo cardíaco, que é implantado sob a pele no peito do paciente. O gerador envia impulsos elétricos aos eletrodos, que estimulam as áreas do cérebro responsáveis pelos sintomas da doença, ajudando a controlá-los. A DBS é uma opção de tratamento para pacientes que não respondem mais aos medicamentos ou que apresentam efeitos colaterais graves. No entanto, é uma técnica invasiva que envolve riscos e é realizada apenas em casos selecionados e por equipes especializadas.
O estudo, publicado na Aging and Health Research contou com a participação de 76 pacientes, divididos em três grupos: 30 pessoas saudáveis (grupo controle), 30 diagnosticadas com DP tratadas apenas com medicamentos (grupo medicamentoso) e 16 com DP tratada com DBS (grupo DBS). Para avaliar as funções executivas e a memória, foram utilizados vários instrumentos, como a Avaliação Cognitiva de Montreal (MoCA), Rey Auditory Verbal Learning Test, Trail Making Test A and B, Digits Span e Stroop Test.
Os resultados revelaram que o desempenho da memória e das funções executivas estava associado a características demográficas apenas em pacientes tratados com DBS. A análise de regressão exploratória identificou uma associação significativa entre idade, escolaridade e atividade de vida diária e o desempenho das funções executivas e da memória somente no grupo DBS. Embora o estudo tenha encontrado diferenças significativas entre os grupos de controle, medicamentos e DBS, é importante considerar o desequilíbrio de gênero nos grupos avaliados como uma limitação.
A DP é comumente tratada com intervenções farmacológicas, como a reposição de levodopa. No entanto, quando o tratamento medicamentoso não é mais suficiente, alternativas, como a DBS, podem ser utilizadas. Embora a DBS tenha demonstrado muitos benefícios motores, como redução das flutuações motoras e das discinesias, os declínios cognitivos são um possível efeito colateral.
Estudos anteriores já relataram a influência da DBS nas funções executivas e na memória em pacientes com DP. Alguns pesquisadores defendem que o declínio na fluência verbal se deve às micro lesões resultantes da cirurgia de implantação e que a diminuição é temporária. No entanto, mais investigações são necessárias para entender a influência de variáveis individuais no desempenho cognitivo em pacientes com DBS.
Em resumo, este estudo teve como objetivo identificar a associação entre características demográficas, funções executivas e desempenho da memória em pacientes com DP com e sem DBS. Os resultados sugerem que a idade, escolaridade e atividades da vida diária estão relacionadas ao desempenho cognitivo apenas em pacientes com DBS.
Referência:
Arten, Thayná LS, and Amer C. Hamdan. “Executive functions and memory in Parkinson’s disease patients with Deep Brain Stimulation.” Aging and Health Research 2.1 (2022): 100065.
Link para o artigo:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2667032122000129
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Estudo evidencia que crenças positivas sobre a idade podem influenciar a recuperação cognitiva em idosos com comprometimento leve

Este estudo investiga o papel das crenças positivas sobre a idade na recuperação do comprometimento cognitivo leve (CCL) entre idosos. O estudo descobriu que indivíduos com CCL que têm crenças positivas sobre a idade têm maior probabilidade de experimentar recuperação cognitiva e o fazem mais cedo do que aqueles com crenças negativas sobre a idade. O estudo destaca a importância de promover crenças positivas sobre a idade em idosos para potencialmente melhorar os resultados cognitivos.
O estudo usou dados do Health and Retirement Study, uma pesquisa longitudinal nacional, e incluiu 4.765 participantes com 60 anos ou mais que foram diagnosticados com CCL. Os participantes foram acompanhados por até oito anos para avaliar seu estado cognitivo. A pesquisa utilizou um modelo estatístico para analisar os dados e controlar possíveis fatores de confusão, como idade, sexo, educação e estado de saúde.
Os resultados do estudo sugerem que as crenças positivas sobre a idade podem ter um efeito protetor na saúde cognitiva de indivíduos mais velhos. A pesquisa contribui para o crescente corpo de pesquisas sobre o papel dos fatores psicossociais no envelhecimento cognitivo e destaca a necessidade de intervenções que promovam crenças positivas sobre a idade em idosos.
O estudo tem algumas limitações, incluindo o uso de medidas autorreferidas de crenças etárias e a falta de informações sobre o conteúdo específico das crenças etárias defendidas pelos participantes. Pesquisas futuras poderiam abordar essas limitações usando medidas mais objetivas das crenças sobre a idade e examinando o conteúdo específico das crenças sobre a idade que estão associadas aos resultados cognitivos.
No geral, o estudo fornece informações importantes sobre o papel das crenças positivas sobre a idade no envelhecimento cognitivo e destaca os benefícios potenciais da promoção de crenças positivas sobre a idade em idosos.
Link para o artigo:
https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2803740
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Cinco hábitos que as pessoas podem adotar para diminuir o risco da doença de Alzheimer

A doença de Alzheimer é uma das doenças neurodegenerativas mais comuns em todo o mundo. Afeta principalmente pessoas mais velhas e pode causar perda progressiva de memória e uma variedade de outros sintomas cognitivos e comportamentais. Embora ainda não haja cura para a doença de Alzheimer, existem algumas coisas que as pessoas podem fazer para reduzir o risco de desenvolver a doença. Neste post, discutiremos cinco hábitos que podem ajudar a reduzir o risco de Alzheimer.
Atividade física regular
O exercício regular é uma das melhores coisas que as pessoas podem fazer para manter o cérebro saudável.O exercício ajuda a aumentar o fluxo sanguíneo para o cérebro, o que pode ajudar a melhorar a função cognitiva. Além disso, o exercício regular pode ajudar a reduzir o risco de doenças cardiovasculares, como pressão alta e diabetes, que são fatores de risco conhecidos para a doença de Alzheimer.
Alimentação saudável
A dieta é um fator importante na saúde do cérebro. As pessoas devem tentar comer uma dieta saudável e equilibrada, rica em frutas, vegetais, grãos integrais, peixe e carnes magras. Também é importante limitar o consumo de alimentos processados e açúcar.Alguns estudos sugerem que uma dieta mediterrânea pode ser particularmente benéfica para a saúde do cérebro.
Estimulação cognitiva
A estimulação cognitiva é importante para manter o cérebro saudável e reduzir o risco de Alzheimer. As pessoas devem tentar manter suas mentes ativas aprendendo coisas novas e desafiadoras, por ex. Por exemplo, aprender um novo idioma, tocar um instrumento musical ou jogar jogos que treinem a memória e a cognição.
Dormir bem
O sono adequado é essencial para uma boa saúde do cérebro. A falta de sono pode levar a problemas de memória e cognição e aumentar o risco de doenças cardiovasculares e outras condições que são fatores de risco para a doença de Alzheimer.As pessoas devem tentar dormir pelo menos sete a oito horas por noite e manter uma rotina de sono consistente.
Socialização
A socialização é uma parte importante da saúde geral do cérebro. Pessoas socialmente comprometidas têm um risco menor de desenvolver a doença de Alzheimer. As pessoas devem tentar manter suas conexões sociais, seja por meio de atividades com amigos e familiares ou por meio de atividades em grupo, como voluntariado ou participação em grupos comunitários.
Em resumo, há várias coisas que as pessoas podem fazer para reduzir o risco de Alzheimer.Exercício regular, dieta saudável, estimulação cognitiva, sono adequado e socialização são hábitos importantes para manter a saúde do cérebro e reduzir o risco de doença de Alzheimer. Ao adotar esses hábitos, as pessoas podem ajudar a manter suas mentes saudáveis e prevenir ou retardar o desenvolvimento da doença de Alzheimer.
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Por que a avaliação neuropsicologia é importante?
Ontem, ministrei a primeira aula da disciplina Fundamentos teóricos e práticos da avaliação neuropsicológica, vinculado ao Programa de Mestrado em Psicologia, na UFPR. O objetivo foi apresentar uma conceituação sobre o que é quais os objetivos da avaliação neuropsicológica. Estes conceitos foram apresentados no artigo Avaliação e reabilitação neuropsicológica: desenvolvimento histórico e perspectivas atuais (2011).Segue abaixo um resumo:
A Neuropsicologia, num sentido lato, é o estudo das relações entre o cérebro e o comportamento e, num sentido stricto, é o campo de atuação profissional que investiga as alterações cognitivas e comportamentais associadas às lesões cerebrais. Este estudo é realizado mediante a aplicação dos conhecimentos advindos das várias disciplinas acadêmicas que configuram o campo das neurociências (neuroanatomia, neurofisiologia, neuroquímica e neurofarmacologia) e de atuação profissional do psicólogo (psicometria, psicologia clínica, psicologia experimental, psicopatologia e psicologia cognitiva).
Os dois principais empregos da neuropsicologia são a avaliação e a reabilitação neuropsicológica. A avaliação neuropsicológica é realizada mediante a aplicação de uma bateria de testes psicométricos que procuram identificar o rendimento cognitivo funcional, a partir do conhecimento de suas relações com o funcionamento cerebral. A avaliação neuropsicológica permite investigar uma determinada função cognitiva para observar sua integridade ou comportamento. O foco da investigação são as funções cognitivas, tais como: memória, atenção, linguagem, funções executivas, raciocínio, motricidade e percepção, bem como as alterações afetivas e de personalidade. Os objetivos da avaliação neuropsicológica são: (1) descrever e identificar alterações do funcionamento psicológico; (2) estabelecer o correlato neurobiológico com o resultado dos testes; (3) determinar se as alterações estão associadas a doenças neurológicas e/ou psiquiátricas ou não; (4) avaliar as alterações através do tempo e desenvolver um prognóstico; (5) oferecer orientações para a reabilitação e o planejamento vocacional e/ou educacional; (6) oferecer orientações para cuidadores e familiares de pacientes; (7) auxiliar no planejamento e implementação do tratamento; (8) desenvolver a pesquisa científica; e (9) elaborar documentos legais. Os exames diagnósticos podem ser empregados em situações legais, tais como: interdições, absolvição ou detenção de pessoas, admissão e afastamentos previdenciários e trabalhistas e indenizações (também conhecida como neuropsicologia forense). A avaliação neuropsicológica tem sido utilizada para investigar a organização do funcionamento cerebral e sua relação com as atividades comportamentais decorrentes de distúrbios específicos do cérebro (Hebben & Milberg, 2002; Lezak, Howieson, & Loring, 2004).
A reabilitação neuropsicológica é um processo em que pessoas com lesão cerebral, em cooperação com profissionais de saúde, familiares e membros da comunidade, buscam tratar ou aliviar deficiências cognitivas resultantes de uma lesão neurológica. O objetivo da reabilitação neuropsicológica é capacitar pacientes e familiares a conviver, lidar, contornar, reduzir ou superar as deficiências cognitivas resultantes de lesão neurológica (Wilson, 2003a).
Os conhecimentos produzidos pela neuropsicologia têm um amplo emprego na investigação científica e na aplicação destes conhecimentos no campo profissional. A investigação científica auxilia na busca de explicações sobre as relações entre o cérebro e o comportamento. Na atuação profissional, a avaliação e a reabilitação neuropsicológica contribuem para a identificação, documentação e tratamento das alterações cognitivas e comportamentais presentes em diversas situações onde o sistema nervoso central é afetado.
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Honestidade intelectual
Vivemos dias em que a desonestidade é predominante. Observamos a sua presença em todos as áreas: econômica, política, cultural e acadêmica. Abundam as evidências de fraude acadêmica em todos os níveis. O filósofo Olavo de Carvalho, no livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, define o que é a honestidade intelectual:
Perguntaram-me uma vez, num debate, como definia a honestidade intelectual. Sem pestanejar, respondi: é você não fingir que sabe aquilo que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. Se sei, sei que sei. Se não sei, sei que não sei. Isto é tudo. Saber que sabe é saber; saber que não sabe é também saber. A inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa inteira no exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral.
Temos a responsabilidade moral sobre as nossas ações e pensamentos.
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Salmo 119.1-8
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O que é e como criticar – parte 3
Os quatro itens podem ser brevemente resumidos supondo-se que o leitor esteja conversando com o autor, ou seja, como se estivesse lhe respondendo ou fazendo comentários. Após dizer “entendi, mas não concordo”, o leitor poderá fazer estes comentários ao autor: (1) “Você está desinformado”, (2) “Você está mal informado”, (3) “Você é ilógico – seu raciocínio não é coerente”, (4) “Sua análise está incompleta”.
Talvez, mais tarde, você descubra que essas quatro observações não são exaustivas, mas achamos que são. De qualquer maneira, elas compõem as principais discórdias esperadas do leitor. Elas são mais ou menos independentes. Se você fez uma dessas observações não significa que não pode fazer outra também. Você pode comentar todas ao mesmo tempo, já que as falhas a que se referem não são mutualmente excludentes.
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COMO JULGAR A SOLIDEZ DE UM AUTOR
As primeiras três observações são diferentes da quarta, conforme você provavelmente percebeu. Vejamos cada uma delas rapidamente e depois passaremos à quarta.
1.Dizer que o autor está desinformado é o mesmo que dizer que nele estão ausentes conhecimentos relevantes sobre o problema que tenta resolver. Observe que essa crítica só faz sentido se for relevante o conhecimento que falta ao autor. Para a crítica faça sentido, você deve ser capaz de declarar precisamente o conhecimento que falta ao autor, mostrando a sua relevância para as conclusões do problema e do raciocínio.
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2. Dizer que o autor está mal informado é o mesmo que dizer que ele afirma algo que não corresponde à realidade. A falha pode resultar de alguma falta de conhecimento, mas não se trata apenas disso. A despeito da causa, o erro consiste em afirmar coisas contrárias aos fatos. O autor afirma que algo é verdadeiro ou provável quando, de fato, é algo falso ou improvável. Ele afirma possuir um conhecimento que não tem. Evidentemente, esse tipo de falha só deve ser apontado quando a questão for relevante às conclusões do autor. E não se esqueça: a falha não deve ser apontada, deve ser refutada mostrando a verdade (ou a maior probabilidade) do seu ponto de vista em relação ao autor.
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Essas duas primeiras respostas críticas estão inter-relacionadas. Falta de informação, conforme vimos, pode ser a causa de afirmações equivocadas. Além disso, sempre que alguém está mal informado, ele também estará, de certa maneira, desinformado. Mas faz diferença observar a relevância do erro. A falta de conhecimento relevante torna impossível solucionar certos problemas ou sustentar determinadas conclusões. As suposições errôneas, contudo, levam a conclusões errôneas e as soluções insustentáveis. Tomados em conjunto, esses dois pontos levantam suspeitas contra as premissas do autor. Ele precisa de mais conhecimento do que possui. Suas evidências não são suficientes, seja em quantidade, seja em qualidade.
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3. Dizer que o autor é ilógico é o mesmo que dizer que ele foi falacioso ao raciocinar. Em geral, há dois tipos de falácias. Há os non sequitur, ou seja, a conclusão não guarda relação necessária com as razões oferecidas. E há as inconsistências, isto é, quando o autor afirma duas coisas que são incompatíveis entre si. Para fazer uma dessas duas críticas, o leitor precisa ser capaz de mostrar onde, precisamente, a argumentação do autor carece de coerência. Só devemos nos ocupar dessas falhas à medida que elas afetem as conclusões principais do autor. Afinal o livro pode carecer de coesão em questões irrelevantes à conclusão.
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Este terceiro aspecto crítico relaciona-se com os outros dois. O autor pode, obviamente, ter sido malsucedido ao extrair as devidas conclusões das evidências e princípios. Por conseguinte, o raciocínio estará incompleto. Aqui estamos preocupados sobretudo com o caso em que ele raciocina equivocadamente com base em premissas corretas. É interessante, mas não tão importante, descobrir sua falta de coerência ao raciocinar com base em premissas falsas o a partir de evidências inadequadas.
A pessoa que chega a uma conclusão inválida a partir de premissas válidas está, de certa maneira mal informada. Mesmo assim, vale a pena distinguir entre o tipo de afirmação errônea que decorre de raciocínio falho e o tipo de afirmação errônea que decorre de outras falhas, sobretudo de conhecimento insuficiente dos detalhes relevantes.
COMO JULGAR O GRAU DE COMPLETUDE DE UM AUTOR
As três observações críticas já consideradas lidam com a solidez das informações e dos raciocínios do autor. Vamos agora nos voltar à quarta observação. Essa se refere ao esmero com que o autor executou seu plano.
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Se você não foi capaz de mostrar onde e como o autor está desinformado, mal informado ou ilógico, então simplesmente não pode discordar dele. Você tem de concordar. Você não pode dizer, como muitos alunos dizem por aí, que “não encontrei nada de errado nas premissas, nem no raciocínio, mas mesmo assim discordo das conclusões”. Do contrário, o que você estaria dizendo é que não gosta das conclusões. Você não está discordando, está expressando suas emoções ou preconceitos. Ora, se você foi convencido, então tem de admitir isso. (Se, mesmo não aderindo a nenhuma das três respostas críticas, você ainda se sente honestamente incapaz de se deixar convencer, talvez não devesse ter dito que entendeu o livro.)
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4. Dizer que a análise está incompleta é o mesmo que dizer que o autor não resolveu o problema que se propôs a resolver, ou que não usou adequadamente o material de que dispunha, que não observou todas as devidas implicações e ramificações, ou que falhou ao distinguir os aspectos relevantes de sua empreitada. Não basta dizer que o livro está incompleto. Qualquer um conseguiria dizer isso. Os homens são finitos e, por conseguinte, suas obras também são. Portanto, essa ressalva só faz sentido se você for capaz de definir precisamente onde está a inadequação, seja por esforço próprio, seja com o auxílio de outros livros.
Os princípios da crítica ensinados por Adler referem a leitura de livros, mas considero que são aplicáveis em outros contextos, como os debates públicos e os trabalhos acadêmicos (monografias, dissertações e artigos científicos). Por exemplo, estes princípios, com as devidas ressalvas, podem nortear a elaboração da seção discussão na apresentação de um relatório de pesquisa. Em síntese, o que se recomenda é o desenvolvimento da habilidade de crítica para além da expressão das preferências e emoções pessoais.
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O que é e como criticar – parte 2
Criticar é algo que pode ser aprendido. No post anterior, discorremos sobre as premissas da crítica. Agora, tendo como fundamento o texto de Adler (Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente), comentaremos o modo de conduzir uma crítica quando discordamos do autor.Consideremos agora a situação em que você discorda do autor mesmo que tenha entendido tudo o que ele disse. Se você se esforçou em seguir os preceitos apresentados no capítulo anterior, então discorda porque sabe onde o autor errou. Você não está simplesmente verbalizando preconceitos ou expressando emoções. É por isso que, de um ponto de vista ideal, há três condições que devem ser satisfeitas para que a controvérsia seja conduzida a contento.
A primeira é exatamente esta: como os seres humanos além de racionais são também animais, é indispensável que as emoções que porventura despontem ao logo da discórdia sejam identificadas e reconhecidas como tal. Caso contrário, você apenas dará vazão a sentimentos, e não ai declarar razões. Você pode até achar que está coberto de razão, mas na verdade está coberto de fortes emoções.
Segundo: você precisa explicitar suas premissas e pressuposições. Precisa estar ciente dos seus preconceitos, isto é, de seus prejulgamentos. Caso contrário, não conseguirá admitir que seu oponente também tem o direito de ter premissas e pressuposições diferentes. A boa discórdia não deve resumir-se a disputas sobre premissas. Por exemplo, se um autor explicitamente lhe pedir que aceite certas premissas como verdadeiras, o fato de que o contrário do que ele diz também possa ser verdadeiro não é motivo suficiente para você contestá-lo. Se seus preconceitos situam-se no pólo oposto e se você não reconhece que são preconceitos, será incapaz de avaliar o autor com a devida justiça.
Terceira e última: tentar ser imparcial é um bom antídoto para as cegueiras “partidárias”. É impossível não haver controvérsias quando há tomada de partido, mas para que as partes tenham certeza de que estão trilhando o caminho certo, isto é, que a razão esteja predominando sobre as emoções, é desejável que cada parte assuma o ponto de vista do oponente. Se você for incapaz de ler um livro de maneira, digamos, “simpática”, suas discórdias provavelmente serão fruto de disputas meramente pessoais e não intelectuais.
Essas três condições são, idealmente, as condições sine qua non da conversa inteligente e proveitosa. Elas obviamente se aplicam também a leitura, uma vez que a leitura também é um tipo de conversa. Cada uma dessas condições contém conselhos úteis para os leitores que estejam realmente buscando respeitar o ponto de vista do oponente.
Porém, o ideal é algo do qual podemos nos aproximar, mas que nunca iremos atingir. Jamais devemos esperar, o ideal das pessoas. Nós mesmos, admitamos desde já, estamos bastante conscientes de nossos próprios defeitos. Violamos nossas próprias regras de boas maneiras intelectuais. Já nos percebemos atacando um livro em vez de criticá-lo, batendo em espantalhos, fazendo denuncias sem poder justificá-las ou afirmando que nossos preconceitos eram melhores que os do autor.
No entanto, continuamos firmes em nossa crença de que conversas e leituras críticas podem ser bem disciplinadas. Dessa maneira, vamos substituir essas três condições ideais por um conjunto de prescrições que possam ser facilmente seguidas. Elas indicam os quatro caminhos para que um livro seja devida e justamente criticado. Nossa esperança é que o leitor fique menos inclinado a expressar emoções e preconceitos.
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p>No próximo post, apresentaremos as 04 preposições práticas, que Adler ensina para fazer uma crítica.
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O que é e como criticar
Já é lugar-comum afirmar que critica não é sinônimo de discordar ou pior sinônimo de argumento ad hominem. Mas, de fato, muitas vezes, esquecemos o que é e como criticar. Adler, em Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente, ensina a repensarmos o que é a crítica e como fazê-lo. Segue, abaixo, um trecho:Regra 9: Você tem dizer com razoável grau de certeza “eu entendo” antes que possa dizer “concordo” ou “discordo” ou “suspendo o julgamento”.
Essas três afirmações são exaustivas, ou seja, elas resumem todas as possibilidades que você pode adotar a respeito de um livro. Esperamos que você não tenha imaginado que criticar significa discordar. Trata-se de um equívoco muito comum. Concordar é um exercício de julgamento crítico, assim como discordar. Você pode errar tanto ao concordar quanto ao discordar. Discordar sem entender é imprudente.
Embora não seja tão obvio de início, a suspensão de um julgamento é também uma crítica. Você está assumindo a postura de que algo não foi demonstrado, ou seja, não está convencido ou persuadido para nenhum dos lados.
A regra parece tão óbvia que talvez você esteja se perguntando por que nos incomodamos em explicitá-la. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, muitas pessoas cometem o erro já mencionado de igualar crítica com discórdia. (Mesmo as críticas “construtivas” são discordantes.) Em segundo lugar, embora essa regra pareça obviamente legítima, nossa experiência deixa claro que pouca gente a segue na prática. Como regra de ouro, ela dá mais margem a elogios insinceros do que à obediência inteligente.
Todo autor já passou pela experiência de ser alvo de críticos que não se sentiram obrigados a cumprir os dois primeiros estágios da leitura. O crítico frequentemente imagina que não precisa ser leitor, apenas juiz. Todo palestrante também passou pela mesma experiência, isto é, foi alvo de perguntas cujo contexto revela que, obviamente, o ouvinte não entendeu o que foi dito. Você mesmo já deve ter ouvido alguém dizer, repentinamente: “Não entendi o que disse, mas acho que você está errado”.
Na realidade, não faz sentido responder a esse tipo de crítica. A única atitude educada, nesses casos, é pedir a tais críticos que repitam o que entenderam, isto é, as ideias que julgam estar condenando. Se não puderem fazê-lo de maneira satisfatória, se não puderem repetir o que foi dito “com suas próprias palavras”, você saberá que eles não entenderam e, portanto, estará com razão se decidir ignorá-los. São críticas irrelevantes, assim como qualquer crítica que não se baseie em entendimento genuíno. Quando conseguir encontrar uma dessas raras pessoas que demonstrem ter entendido o que você disse tão bem quanto você mesmo, então desfrute de seu apoio ou se preocupe com sua crítica.
Após anos de experiência com alunos dos mais variados tipos, concluímos que o cumprimento dessa regra é mais uma exceção do que regra mesmo. Alunos que evidentemente não entenderam o que o autor quis dizer não pensam duas vezes em fazer o papel de juiz. Eles não apenas discordam de algo que não entenderam como, pior ainda, concordam com ideias as quais não conseguiriam expressar inteligentemente com suas próprias palavras. Suas discussões, a exemplo de sua leitura, são apenas palavras. Onde não há entendimento não há sentido e inteligibilidade nas afirmações e negações. Nem mesmo duvidar ou suspender o julgamento são posturas inteligentes, já que o leitor não saberá o que, afinal, ele está deixando de julgar.
Palavras que ainda encontram “ecos” nos dias que correm. Fale-se muito da crítica; recomenda-se uma postura crítica. Exige-se ser crítico. Mas, poucos aprenderam o que é a crítica e como faze-la.
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Quem você é?
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Atualização de conteúdo
Atualização da pasta da disciplina “Avaliação Psicológica II”
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Memória recente
Ela entrou na sala acompanhada pela filha mais nova. Aparentava ter uns 70 anos, talvez um pouco mais ou um pouco menos. Tinha cabelos grisalhos, olhos claros e vestia de maneira elegante, com discrição, aparentando boa saúde.
— Bom dia, D. Amélia? — disse a neuropsicóloga.
— Bom dia, Dra.
— A senhora foi encaminhada pelo neurologista para uma avaliação?
— Sim. Minha milha está preocupada comigo. Ando muito esquecida.
— O que a senhora esquece?
— Eu não lembro bem onde guardei as coisas?
— Que tipo de coisas?
— Os remédios.
— Ela não lembra se já tomou os remédios ou não. Onde está a bolsa. De pagar as contas – respondeu a filha que a acompanhava.
Bárbara era a filha mais nova de 32 anos. Tinha o cabelo liso, longo, os olhos claros e vestia uma calça jeans e uma blusa branca.
— Além de tomar os remédio, de achar a bolsa e pagar as contas, mais alguma coisa?
— Eu esqueço de desligar o fogão, quanto estou preparando o almoço.
— Ela queima o arroz. Fica sempre repetindo as mesmas coisas. Pergunta a mesma coisa várias vezes – disse Bárbara.
— Há quanto tempo a senhora tem observado este esquecimento, D. Amélia? Esquecimento para fatos recentes. Memória recente.
— De um ano para cá.
— Nos últimos 4 anos. Respondeu Bárbara.
— Este esquecimento, parece que está aumentando? – disse a neuropsicóloga.
— Sim, muito. – Disse Bárbara. Por isso fomos ao neurologista.
O encaminhamento do médico solicitava uma avaliação neuropsicológica. Estava escrito o motivo: “Queixa de memória para fatos recentes. Declínio cognitivo”. -
Num campus universitário
Num campus universitário distante, muito distante; uma multidão de alunos, com tochas acessas, seguiam certo professor e gritavam.— Nós queremos o tchum. O tchum é bom, o tchum é demais.
O professor, adepto do relativismo científico, também gritava:
— Nós queremos o tchum. O tchum é bom, o tchum é demais.
De longe, viam-se as labaredas flamejantes das tochas e ouviam-se os gritos:
— Nós queremos o tchum. O tchum é o bom, o tchum é demais.
Assim, percorreram todo o campus universitário. Depois, pararam diante de um lago. O professor tomou a frente e foi em direção as margens do lago e gritou:
— Vocês querem o tchum? A multidão respondeu:
— siiiiimmmmm.
Novamente, o professor perguntou:
— Vocês gostam do tchum? E a multidão respondeu:
— siiiiiiimmm.
Então, o professor virou a tocha sobre o lago e ouviu-se o som:
— Tchum.




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